Tremuria's Quest || Storm's Blog

Monday, October 10, 2005


Sonhos

O brilho do dia, nas suas moribundas horas, iluminava a clareira logo à frente da caverna. Alguns sons emergiam da floresta, enfeitados com a tristeza e a sensibilidade daquelas criaturas que estão mais próximas desta realidade do que nós, seres presos a suas próprias mentes. A água do pequeno rio que saia da caverna – Verion criança, jovem porém orgulhoso – compunha uma canção morna e tranqüilizante. E da caverna saia também Tremuria, suas feições grossas e exageradas tocadas por algo feroz, seus olhos de fundos esverdeados arregalados e brilhantes. Tremuria saiu da caverna, virou-se para a encosta logo acima da porta de seu palacete, e pôs-se a escalar aquele muro natural. Alguns metros acima estava uma pequena saliência que já lhe servira de trono várias vezes. Dado o tamanho da montanha, era difícil enxergar mais que algumas centenas de metros abaixo; a nevoa se tornava densa demais e impedia que a visão perfurasse mais que as imediações de sua casa. Tremuria gostava de sentar ali, acima da copa das árvores (pois, como esta encosta fosse íngreme, não havia muitas a sua volta, e ele subira o suficiente para ultrapassar a maior parte das que estavam à frente da caverna), onde podia assistir o pôr do Sol e receber a Lua.
Mas neste dia o Sol não lhe importava, ou qualquer outro astro. Nem mesmo o canto dos pássaros (que ele começou a ouvir a alguns dias) fazia seu olhar desfocado, arregalado, se alterar.
Rilo se aproximou, curioso para saber o que havia deixado alguém como Tremuria de tal forma. Certamente, não seria um perigo, pois Tremuria não parecia temer nada. Também não seria alguma noticia, pois estavam incomunicáveis, pássaro e homem, a aquela altura daquela montanha. “Que te aflige, Tremuria? Faz dois dias que você não sai da caverna, e agora que sai, está assim, perplexo?”
“Rilo?” Tremuria parecia que estava saindo de uma alucinação, suas íris recuperando o foco, sua face se endireitando. “Eu...”
“Eu acredito que nós estamos sozinhos aqui, e homem algum pode lhe causar mal, amigo, então o que te impactou tanto?” O pássaro voou até um galho da arvore mais próxima, um arbusto na verdade, que mal sustentou seu peso.
“Eu...” Tremuria balbuciava, parecia estar recuperando a consciência vagarosamente. “... tive um sonho.” Com esta revelação, ele pareceu perceber finalmente o pássaro a sua volta e tornou seu olhar à ele. “Mas que isso te importa?”
“Nós somos os únicos aqui, meu caro” Rilo se moveu no galho, pulou para próximo de Tremuria e fixou-se (ainda que mal) sobre o solo. “Só queria ajudar. O que pode haver de tão mal em um sonho?”
Tremuria se moveu, desconfortável com a confissão. Não conversava com alguém há anos, e agora havia um pássaro fazendo perguntas incisivas. “A questão maior, Pássaro, não é o sonho em si.”
Mais curioso que antes, Rilo perguntou com uma voz branda, tentando manter a conversa. “Então, qual seria a questão?”
“A questão é que eu não sonho.”
“Como, não sonha? Quer dizer, você não se lembra?” Rilo estava cada vez mais curioso. Havia uma semana que tinha tido o encontro conturbado com Tremuria. Já achara estranho um humano a tal altura nesta montanha gélida e inóspita, mas agora o ser lhe revelava que não sonhava. Que se lembra, todos os animais inteligentes sonhavam, até mesmo ele, uma criatura menor, e seus irmãos. Diziam que até mesmos as árvores, mais estúpidas de todas as criaturas, eram capaz de sonhar com o Sol. “Acho que seja impossível que você não sonhe.”
“Porém, não sonho. Sonhei apenas duas vezes em toda minha vida. E acredito que este seja o terceiro.”

* * *

Rilo voou até uma árvore. Tremuria descia o morro, agora que anoitecera. Ele parou à frente da caverna, e começou a acender uma pequena fogueira. Algo grande estava para acontecer, ele tinha certeza. O sonho não deixava dúvidas. Seus antigos dons ainda existiam, ele tinha consciência, e agora ele era obrigado a aceitar sua benção (ou maldição) novamente.
Rilo estava cada vez mais curioso, coisa que irritava Tremuria. “Não vai mesmo me contar sobre seu sonho? Você devia confiar em mim, Tremuria. Nunca lhe desejei mal.”
Tremuria, abaixado em frente ao fogo, desviou seu olhar por alguns segundos e fitou o pássaro. “Você me irrita. Não pretendo lhe contar o sonho para sua própria segurança, mas se for me atrapalhar a noite inteira, desisto.”
O pássaro estava pulando, perceptivelmente alegre. Ele finalmente fazia contato com Tremuria. A insistência havia compensado. “Então me conte, porque não irei desistir.”
Tremuria se levantou, com um graveto em sua mão, a ponta em brasa. “Há muitas e muitas léguas daqui existe um reino chamado Gália. Eu estive lá há quinze meses.”
O Sol havia se posto completamente, e a Lua tardava a subir. Apenas as estrelas enchiam o céu com luz. O brilho cintilante da fogueira dava um tom estranho a pele bronzeada de Tremuria. Ele rasgou o breu da noite com seu graveto, e o brilho traçado pela brasa perdurou no ar por alguns instantes.
“Neste reino, existe uma pequena vila, Armstand, fundada na época Romana. Um templo fica no centro da cidade, e é habitado por doze monges. Eu vivi com estes monges durante algum tempo. Para ser sincero, eles me protegeram por vários anos. Eu sonhei com este lugar.”
Rilo estava visivelmente excitado. “Anos e anos você viveu com monges? Quantos anos?”
Tremuria riscou o ar novamente, desta vez desenhando uma espiral. Ela pareceu se mover para fora, se transformando num círculo. “Cinco. Foi suficiente para me tornar amigos deles, principalmente de seu mestre, Aluí”.
“E por que saiu?”
“Foi inevitável. Eu não posso parar muito tempo num lugar. Meu passado me assombra, e eu não queria levar isso àqueles monges. Mas parece que não adiantou.” Tremuria se sentou sobre uma pedra na frente da caverna.
Rilo mergulhou na noite, passou próximo a fogueira, que respondeu a sua rasante e brilhou intensamente. “Por que não adiantou? O que aconteceu?”
O olho de tremuria se tornou vazio novamente. “O sonho. Nele, o templo é atacado pelos meus antigos inimigos. Tudo está queimando.” O graveto balançou novamente, desenhando uma figura estranha. Desta vez, para o espanto de Rilo, a figura ficou no ar. O brilho aumentou, e logo Rilo pôde ver um pequeno templo sendo assaltado por vultos negros. A cena era rápida, os vultos pareciam chocar com focos de luz e estes sumiam. Logo, um dos vultos começou a brilhar fortemente, e logo todo o lugar estava em chamas. O brilho da imagem foi aumentando, até se tornar insuportável e obrigar Rilo a fechar os olhos. Quando ele abriu, a ilusão tinha sumido. Se é que ela havia existido. O pássaro começou a acreditar que isso tinha sido algum tipo de alucinação induzida pelo narrador à sua frente.
“Eles... morreram?” Rilo arriscou a pergunta.
“Todos. Foram apunhalados pela ambição de alguns seres estúpidos. Só me resta descobrir quais.” Tremuria se levantou novamente, e lançou o graveto no fogo.
“Mas, foi apenas um sonho. Não significa nada.” Rilo estava assustado, seus olhos brilhando com lágrimas e medo.
“Não existe isso. Eles estão mortos, ou serão mortos. É apenas uma questão de tempo.”
Tremuria se voltou à caverna. Rilo o interrompeu antes que atingisse a escuridão daquele portão natural. “E o que você vai fazer?”
Tremuria parou, um pequeno sorriso de agonia pintou seus lábios. “Nada. Não há mais nada que possa ser feito. Vou apenas esquecer o sonho.”


Notas do Autor:

Ae pessoal. Finalmente consegui postar mais um capitulo da Saga de Tremuria. Devo dizer que muitas coisas dificultaram este post. Primeiramente, semana passada foi incrivelmente dificil, cheio de coisas pra fazer, provas, trabalhos, tudo. Depois, eu tive que realizar algumas escolhas difíceis para este cápitulo. Eu tive que decidir se Tremuria iria seguir o curso natural e se transformar num conto fantástico ou se eu ia manter o caráter simples da estória.

Eu digo "curso natural" porque normalmente minhas estórias tem este foco. Eu sou influenciado por escritores como E. A. Poe, Lovecraft, H. G. Wells e Neil Gaiman. É óbvio que tudo toma uma direção que leva ao inexplicavel, ao impossivel.

Entretanto, eu pretendia que Tremuria fosse pouco diferente. Sim, a personagem era diferente, fantástica. Mas eu não ia deixar que isso influisse muito na estória; ia ser apenas uma narração sobre como algumas pessoas reagem a certos problemas da vida. Tremuria iria ter problemas mundanos, como relacionamentos, amizades etc. Ele iria, afinal, ser meu porta-voz.

Para o bem da narrativa, entretanto, abandonei esta abordagem. Moldar Tremuria para que ele falasse tudo aquilo que eu gostaria de falar iria dar muito trabalho, e ia se tornar uma estória massiva. Por outro lado, cada vez que eu pensava na estória, mais idéias alternativas eu tinha, boas de certa forma (se eu consegui narrar corretamente, pois como um amigo meu me disse uma vez, não adianta ter a melhor estória do mundo e não saber escrever).

Já tenho mais um capítulo escrito, mas como de costume, irei dar um tempo antes de postar, para que eu possa revisá-lo. Desta forma, eu olho para o texto depois que as idéias assentaram melhor na minha mente.

Suficiente sobre o texto. Espero que eu tenha continuado a despertar a curiosidade daqueles que perdem preciosos minutos lendo meus delírios. Agora, vamos agradecer aos comentários. Primeiro, a grande Taty. Garota, você capturou a essência do personagem de forma inexplicável. Quando eu vi aquilo, fiquei muito animado, percebi que pelo menos uma pessoa tinha entendido tudo. Fico feliz que você tenha gostado da estória. Estou tentanto fazer isso aqui funcionar.

À Carol e o Otávio, brigado por continuarem lendo isto daqui. Significa muito para mim.

Finalmente, músicas: Escrevi acompanhado pelo grande Dream Theater, no novissimo CD Octavarium.

Monday, August 22, 2005

Pássaros II

Tremuria ajustou seu ouvido. Não estava acostumado com aquele tipo de dialeto, mas arriscou: "Estranho, eu? E o que faz um pássaro a esta altura, depois dos círculos de neve? Achei que toda a fauna aqui estivesse limitada aos pequenos insetos e aos peixes."
O pássaro se atirou no ar, flutuou sobre suas belas penas - azuis e amarelas, percebeu Tremuria agora que ele estava mais próximo - e pousou sobre um galho logo acima da cabeça do lenhador-artesão. Moveu seu bico, mas agora Tremuria podia entendê-lo. "Se não houvesse pássaros e outros animais nesta região, quem impediria os insetos de dominarem toda a montanha? Agora, Homem, aqui, é novidade. Por isso diga-me, qual seu nome, você que invade minha morada e desafia minha casa e minha floresta?"
Tremuria abaixa o machado em sinal de respeito. "Sou Tremuria. Apenas Tremuria. Venho aqui porque estou cansado das vilas e cidades do mundo. Desculpe invadir sua casa; não sabia que alguém mais habitava floresta tão inóspita. Qual o seu nome, pássaro?" Tremuria estava com sua pálida face rebaixada, mas fitava o pássaro. Os pássaros costumavam respeitá-lo em seu reino, e era a primeira vez que era questionado por um deles.
"Tremuria? E eu devia conhecê-lo? Que bobagem”. O pássaro se moveu no galho, desceu rapidamente o bico até a base de onde estava e voltou com um pequeno grilo preso no seu bico. Tremuria agora percebia que era pequeno, menor que seu antebraço, e que poderia facilmente matá-lo. Mas havia jurado não cometer estes crimes. "E o que faz destruindo estas árvores, justas, que nunca ofereceram ao mundo nada além de sombra?”. Tremuria estava impressionado. Nunca havia conversado com um pássaro tão irreverente, insistente em lhe perturbar. Estava cansado da conversa, e resolveu que voltaria a sua caverna. "Vim buscar lenha. Preciso manter minha casa aquecida. Se derrubei alguma de suas amigas, desculpe-me. Mas era necessário." E com isto voltou-se para a entrada de seu palacete, mas antes que desse mais que dois passos, o pássaro interveio.
"Rilo." Tremuria parou ao ouvir aquela palavra estranha. "Rilo é meu nome, Tremuria. Se você não deseja mal a essa floresta, então seremos amigos. Existem poucos outros animais por aqui, alados ou não. Será bom ter com quem conversar”.remuria continuou a andar e sumiu dentro da escuridão de sua caverna.

Enquanto isso volto minha atenção para uma casa num local não muito distante dali. Cinco mulheres, todas loiras, estão reunidas na sala. Berros são ouvidos ao longe, mas isso não parece incomodá-las. Elas conversam sem palavras, enquanto a mais velha prepara um chá, fazendo um pequeno ritual que consiste em elevar o chá acima de sua cabeça, enquanto se dirige para os quatro pontos cardeais. Ela volta-se ao Norte, e um brilho da vela ilumina sua face. "Com este, ofereço nossa pureza a Naygan, príncipe eterno da bondade, mestre do fogo. Com este, ofereço nossa beleza a Ogória, deusa eterna do Ar e da Luz, eterna vaidade”.Estas últimas palavras são ecoadas a Oeste, e então a mulher coloca a pequena jarra sobre a mesa. “Leve minha essência” ela suplica, e talha seu braço com uma pequena adaga. O sangue escorre pela lâmina e pinga sobre o chá, e a mulher volta-se para Sul. "Sandina, habitante dos mares, mestre da escuridão e do medo, devoto este à você, para que sua raiva nunca recaia sobre nós." Mais uma reverência, e a mulher se vira para Leste. As faces das outras quatro, que estão nuas, cada uma em pé frente a uma cadeira, estão pálidas, brancas como a neve. A garota a leste, entretanto, treme. Um outro grito de dor irrompe o silêncio do ritual, e a garota engasga, olhando para baixo e deixando lágrimas de medo molharem seu rosto. A madre superiora ergue a jarra de chá e fita a noviça. Uma falha num ritual desses pode complicar para sempre sua ordem, ela sabe. Seu olhar é cruel, obrigando a moça a recolher seu rosto para a escuridão. Ela sabe que não pode falhar, e retira forças de seu medo. "Ofereço este a você, Lamúria, senhor negro do oriente, comandante supremo da Terra, que esta oferta apazigúe a dor de seu coração e nos permita a paz”. A madre toma um gole do chá. "Com este, somos um e somos todas. Que os elementais nos protejam”.As outras mulheres procedem a tomar cada uma um gole do chá. Elas estão purificadas. Os berros, entretanto, aumentam quando a última toma sua porção e a cerimônia acaba. A garota do Leste, perceptivelmente mais jovem que as outras do círculo, balbucia a madre, e quanto a garota lá em cima? O que elas irão fazer agora? A madre novamente olha para a garota com uma chama ardendo em seus olhos.
"Leste, você é jovem e imprudente. Nós iremos lidar com Helena quando for devido. Mas precisamos nos preparar para a empreitada que nos aguarda”. Com isso ela se torna, e pede para as outras noviças que se vistam.

Notas do Autor:


E aqui estou eu novamente, com mais um capítulo da Saga de Tremuria. A demora desta vez é justificada por uma semana de isolamento em casa seguida por inúmeras entrevistas. Formar é mais complicado do que pensei. Mas vamos ao que interessa.

Neste capítulo, não revelei mais nada sobre Tremuria. Que ele conversa com pássaros já sabemos desde o último episódio. Mas agora inseria um novo elemento. Devo confessar que a estória ainda está confusa em minha mente. Não cheguei a decidir como certos fatos irão desenrolar, e nem mesmo sei de onde surgiu os pedaços que escrevi hoje. Mas acreditem, surpresas e novos personagens aguardam.

Diminuí o tamanho dos capítulos para encorajar os preguiçosos a lerem. Alguns de vocês podem não entender por que faço tanta questão que alguém leia. Na verdade, é uma questão complicada, mas entendam que eu não estaria escrevendo se ninguém estivesse lendo. Eu já me divirto bastante imaginando a estória, escrever tem o único propósito de passar minhas idéias adiante.

Por enquando, ainda não pude mostrar aquilo que mais interessa-me: a personalidade de Tremuria. É estranho como não temos poder sobre a caneta quando nos colocamos a escrever. Parece que a estória toma vida, e passa a nos controlar. Eu não esperava ter escrito metade do que escrevi, e entretanto está tudo aí. Bom, espero que estejam gostando. Quando a qualidade do texto em si, este capítulo deixa a desejar, mas foi feito na pressa. Queria colocar um texto novo ainda hoje.

Como sempre, as músicas. Fui acompanhado por Opeth, com seu álbum Ghost Reveries. Os últimos trechos foram acompanhados por Pain Of Salvation, em One Hour By The Concrete Lake. Até a próxima, e por favor, deixe opiniões ou apenas assinem o guest book, para eu saber que existem leitores. Abraço.


Pássaros I

E então uma semana se passou. Tremuria mateve-se ocupado, transformando aquele pequeno paraiso em sua casa. A Caverna era perfeita, ele pensava; Tocar nela seria um ato de violação. E isso servia-lhe bem. Tremuria era atraído pelas coisas belas, mas desprezava a perfeição: nada perfeito poderia ser real. Mais que isso, o imperfeito era o que ele amava. Tal coisa pode ser tão dificil de conceber? Ora, nós definimos nossa própria mortalidade atráves de nossos defeitos. Olhe para um quadro de qualquer célebre artista, e imediatamente percorremos as linhas produzidas com tanto carinho buscando aquilo que faz do quadro humano, aquela pequena incorreção ou falha na composição de cores. Lemos um texto, e todo comentário subseqüente será sobre os momentos em que o autor engana-se ou contradiz-se.

E era isto que Tremuria amava. Este pequenos detalhes que davam característica as coisas: traços de personalidade, era isso que ele ambicionava. Violar a caverna passou a ser, durante as horas daquela semana, seu passatempo. Ele cravou sinais nas paredes, moldou um pequeno trono naquela enorme galeria e finalmente construiu uma pequena lareira. Os dias passaram-se com Tremuria indo e voltando através da caverna, buscando lenha do lado de fora e voltando para dentro. Com tempo, utilizando suas habilidades de artesão, foi capaz de montar uma ponte curva que passava por cima do lago da caverna. Preparou também uma armadilha para que pudesse mais facilmente recolher os peixes. Cada vez mais o local recebia seu toque: como fosse capaz de cravar desenhos nas pedras, Tremuria colocou sinais que remetiam a seu passado por toda a galeria. Com folhas e cordas de cipó, criou uma cama e até mesmo cortinas que isolavam a passagem de ar pela caverna.

Estava pronto. Seu novo lar. Aqui poderia definhar até o fim de suas forças. Somente restaria-lhe o desejo de uma passagem serena. Mas haviam pecados a serem pagos. E haveria o maior deles, o seu desprezo por sua existência, e este ele pagava aqui mesmo, nesta manifestação de seu espírito machucado - nesta versão mundana de sua alma. No nono dia após sua chegada a caverna, sua mente atolou-se em dúvidas. Tremuria sabia há muito tempo como lidar com elas. Simplesmente ocupou-se novamente: como a caverna era úmida, todos os enfeites que ele havia trazido ou forjado estavam envelhecendo. "Que curioso," pensou enquanto colocava em suas mãos um pequeno ídolo de madeira, uma curiosa figura de um deus atarrancado, o qual sustentava em seus ombros uma gigantesca caveira, "que a água, aquela responsável por toda a vida neste planeta, seja também responsável por esta destruição." Deixou o ídolo, e resolveu acender a lareira, que por enquanto só tinha sido útil para aquecer as poucas refeições dos últimos dias. Tremuria não comia com uma freqüência comum. Não era necessário mais que alguns nutrientes em um dia. De fato, não era necessário mais que alguns nutrientes no espaço de três dias. E após sua peregrinação pelo deserto, havia abandonado todas essas necessidades, como comer ou mesmo dormir. Entretanto dormia, pois era um dos poucos momentos que sua mente dava-lhe paz. Na verdade, era o único momento. Durante todos os outros, Tremuria esforçava-se para manter seu níveis subconsciente e inconsciente desativados, mas para tanto era necessário tremenda concentração, e por isso era cansativo demais estar acordado. O curioso era que, Tremuria sabia, ele não se cansava. Ele poderia passar cionqüenta dias andando, ou mesmo correndo, e estaria pronto para mais cinqüenta. Ele poderia não dormir durante cem noites e cem dias, e ainda assim não precisava descansar. Então, por que preferia dormir? Por que não ficar acordado, como em sua infância? Não; Dormir o atraía. Eram os sonhos, a materialização enevoada de seus desejos, aquilo que ele amava ou pretendia amar. Sua mente não dava-lhe o prazer do real descanso, mas o Sonhar era seu refúgio, seu santuário. E enquanto divaga por essas linhas, a madeira que tinha queimado virava pó. Tremuria levantou-se e partiu cortar mais árvores. "Talvez um tronco, ou dois, sejam suficientes para esta noite" ele pensava, enquanto pegava seu machado, um dos poucos itens que trouxe consigo até o alto da Montanha. "Todavia, devo evitar ter que cortar madeira. Então devo trazer toda aquela que necessito para não um dia e sim mêses. Se eu sobreviver todo este tempo, então corto mais." Tremuria brincava com palavras, ora pensando na norma culta, ora falando como um marinheiro que tivesse seu sangue preenchido com rum. Colocou o machado no ombro, pegou duas luvas de couro, parte da pouca vestimenta que tinha, e se dirigiu para fora da caverna. Entardecia, e o sol rosa pintava um estranho desenho na clareira a frente da caverna. As árvores dançavam a melodia do vento, e Tremuria sorriu a ver tal espetáculo. E seu sorriso carregava tristeza, pois sabia que o machado que carregava encerraria a diversão de algumas daquelas árvores. Escolheu algumas das mais altas, e algumas das mais velhas. "Deusa Gaia, mulher do Sol e mãe da Terra, perdoai-me por ceifar a vida inocente de suas crianças" ele proclamou, enquanto apoiava seu machado no chão e observava sua primeira vítima. "Árvore, não sei seu nome. Não passei tempo suficiente aqui para conhecê-la; Devo agora desfazer de sua vida como um predador ignorante, um cão raivoso que assassina um coelho jovem apenas para saciar sua fome. Desculpas são inúteis, por isso, não me desculpo. Nem mesmo culpa sinto pelo que vou fazer, mas gostaria de encomendar sua alma de volta para a Deusa. Terá um fim digno, pois irá aquecer minha morada e será queimada, pois se o Sol nos permite viver, deve ser ele quem nos tira a vida." Ergueu seu machado enquanto completava a última frase, e esperou que a árvore concordasse. O vento aumentou, e um assobiu preencheu seus ouvidos. O primeiro tom era alegre, mas seguido por outros que pareciam lamentos. A irmãs da árvore choravam, Tremuria entendeu. Moveu rápidamente seu machado, um silvo riscou o ar, e a lamina brilhante entalhou a árvore. Era mais grossa que Tremuria imaginava, então ele retirou o machado e desferiu o golpe de misericórdia, atravessando o torso da árvore e terminando sua existência. Repitiu a cena na árvore do lado; Calculava que necessitaria de quatro ou cinco daquelas árvores para três semanas: pretendia manter o fogo aceso todo o tempo, para diminuir a umidade.

Mas quando chegou na terceira árvore, um barulho o destraiu. Esforçou seus sentidos para que discernisse o som que atrapalhava sua empreitada. Um canto manifestava-se do alto da árvore. Tremuria ergueu sua cabeça e avistou um pássaro azul no alto da árvore; Ele mexia-se ávidamente, como que buscasse a atenção da criatura pálida logo abaixo de sua casa. "Krrrik, kraaa" fazia o passáro. Tremuria entendeu: "O que faz aqui, estranho?"
Notas do Autor:

E aqui está nosso segundo capítulo de Tremuria. Começo já agradecendo quem se deu ao trabalho de ler o primeiro. Vou aproveitar e falar um pouco da produção desta "saga," se me permitem o termo exagerado.

Isto é mais um pedido de desculpas, uma justificativa da má-qualidade que o texto apresenta (e apresentará) em trechos. Explico melhor: estou escrevendo estes textos diretamente aqui no Blog, de forma sequencial. Ou seja, cada vez que sento aqui, escrevo um (as vezes mais) capítulos, dou uma pequena lida, e publico. Depois, passo cerca de uma semana planejando o próximo capítulo, sento, escrevo e publico. O problema com isto é que se tenho uma idéia que infere num ajuste num capítulo passado, não tenho como fazê-lo. Por exemplo, poderia agora descrever Tremuria como um ser alto, pálido (como já fiz), e com um corpo "perfeito". Amanhã posso decidir que Tremuria tem uma cicatriz no peito causada num combate. E então, não tenho mais como ajustar o que já foi escrito. É lógico que, para evitar isso, basta eu planejar a estória da personagem com certa antecedência. Mas toda vez que sento para escrever, alguma coisa é modificada. Mesmo a própria personalidade de Tremuria, talvez aquilo que eu tenha estabelecido mais claramente antes de começar a escrever, está sendo remoldada quando eu passo o que penso para palavras.

Além disso, também me desculpem por problemas de português e escrita, e falta (ou abuso) de recursos estilísticos. Após a escrita do primeiro texto, não realizei uma verdadeira revisão. Notei apenas agora repetições indevidas, erros de gramática e até mesmo de concordância. Não estou usando um editor de texto com revisão gramátical por questão de praticidade, mas isso significa que alguns erros vão passar por mim despercebidos (principalmente de acentuação, ainda mais se vocês considerarem que eu utilizo um teclado de layout Inglês). Eu corrigi os erros, mas obviamente não reescrevi os trechos que agora considero piegas ou mal escritos (por exemplo, se pudesse, removeria o primeiro parágrafo).

Chega de desculpas, vamos à própria estória: A ação ainda não começou. Estou primeiro caracterizando o cenário, principalmente por ele refletir a personalidade de Tremuria. Introduzi nosso primeiro coadjuvante, o pássaro. Era meu desejo continuar e já colocar a primeira discussão entre os dois neste texto, mas achei que o cápitulo ficaria extenso demais e acredito que muitos vão deixar de ler por este motivo. Por isso, Pássaros foi divido em duas partes, I e II.

Nos próximos cápitulos vocês irão descobrir por que Tremuria está isolado neste paraíso perdido, quem é este pássaro (e para quem ainda não percebeu, por que o pássaro comunica-se com Tremuria). Vão descobrir o que significa o nome Tremuria, seu passado, etc. Tudo isso está ainda se desdobrando em minha mente, mas as idéias estão aqui - ainda que de forma bruta.

Finalmente, quem comentou o último post, muuuito obrigado. É o que me mantém escrevendo. Do contrário, posso me divertir apenas pensando e nunca escrevendo (é exatamente por isso que não sou escritor: tenho mais prazer imaginando que escrevendo). Quanto aos que querem saber como descobrir atualizações temos duas alternativas: a primeria, existe um feeder para RSS disponivel, o link deste é http://tremuria-hsden.blogspot.com/atom.xml. Vários programas aceitam RSS, e quem tiver o mais indicado é o ThuderBird (companion de mail do Firefox). A segunda seria eu criar um maillist e enviar um email toda vez que eu atualizar. Se vocês preferirem, posso fazer isso em alguns minutos. :)

Escrevi este texto ouvindo Blackwater Park, o mais incrível CD da banda Opeth.

Wednesday, August 17, 2005


A Caverna

Há eras atrás, quando o mundo era virgem, seres únicos habitavam nosso planeta. Está é a estória de um deles. É necessário entender que Tremuria, embora possuísse uma beleza incrível, força de um exército e sabedoria de um monge, não estava pronto para a existência material a qual tinha sido confinado. Grandes espíritos lançados sobre pobres corpos frustram-se. Mas adianto-me; Tremuria ainda não faz parte de nossa estória. Antes, preciso contar-lhes sobre a Caverna.

Em Aidan, um planalto montanhoso que ficava ao norte de nosso planeta, perto do gelo eterno da Sibéria, existia uma montanha inexplorada. A montanha, em discórdia com o frio que reinava na região, possuía uma mata densa, verde, imponente. Pedras preciosas de todos os tipos eram encontradas no solo fértil da região, e árvores altas e volumosas davam um brilho único àquele local. A fauna também impressionaria um viajante mais atencioso: pequenos animais, extintos em todos outros lugares do mundo, sobreviviam ali, em harmonia com a natureza. Pequenos parentes de coelhos, animais pequenos e velozes, insetos dignos das mais belas coleções, de armaduras verde-brilhante, chifres pontiagudos e sons estonteantes, e pássaros alienígenas, com cores que desafiavam uma aurora boreal e cantos que se transformavam em música no agradável silêncio da floresta. É neste local que a caverna, objeto de nossa narrativa, se encontra. No pico mais alto, após o primeiro circulo de neve, está uma pequena nascente que corre montanha abaixo, escondendo-se em galerias e emergindo várias vezes até a base da montanha. Aidan deve seu sustendo a este rio de águas cristalinas; sua força e beleza são deturpadas com moinhos e pescadores. E foi este rio que nos trouxe a caverna, pois Tremuria, em uma de suas longas viagens cruzou Aidan e, ao atravessar o rio, decidiu segui-lo. Obra do acaso? Eu diria que Tremuria tinha certeza que tal beleza provinha de local ainda mais belo. E Tremuria foi o primeiro a subir a montanha, a desbravar aquela mata virgem. Ele não temia nada. Não efeito de coragem extrema, veja. A verdade é que Tremuria não se importava em morrer na tentativa de atingir a nascente daquele rio. Mais ainda, não se importava em morrer por nada.

Mas novamente apresso-me. A caverna é nosso objeto de estudo. Antes de Tremuria chegar à nascente do rio Verion (nome dado pelo primeiro habitante de Aidan, um jovem de nome Johanat que tinha abandonado as terras desérticas do Sul e vindo procurar refúgio no frio do Norte) e encontrar a caverna, o local era moradia de muitas árvores. A entrada da caverna ficava em uma clareira, próxima a uma barreira densa de árvores. Para exploradores mais inexperientes, este local estaria acessível apenas através de Verion, subindo contra a correnteza, que era fraca nesta proximidade com seu berço. Entretanto, Tremuria conhecia mais florestas que todos os mortais, e as árvores eram suas amigas. Foi assim que ele subiu aquele pico imortal: conquistando a bondade e simpatia das árvores, e das plantas que lhe alimentavam. A caverna era larga e alta. Seu corredor inicial era curto, baixo para alguém da estatura de Tremuria, mas alto para uma pessoa comum. Após uns dez ou quinze metros, o corredor dava espaço para uma enorme galeria, de dezenas de metros de altura, mais larga que alas de palácios. Embelezada por pedras preciosas incrustadas em sua parede e pelos raios solares que atravessavam seu teto, quem entrasse naquele local sentiria-se no salão do palácio do rei da Terra. O rio Verion corria de uma pequena abertura na parede, que parecia vir do mais alto ponto na montanha. Dentro deste salão, o rio formava uma piscina, habitada por peixes de todas as sortes, de tons de vermelhos e amarelos e todos simpáticos a quem quer que entre em seus domínios.

Tremuria, mesmo não mais dando importância à matéria e as belezas terrenas, não pôde deixar de se impressionar com aquele local. Conforme ele subia a montanha, parecia que as árvores, mais antigas e sábias, tornavam-se também mais bonitas. E Destino trabalha de forma curiosa, pois quando finalmente Tremuria atingia o topo e ultrapassava a barreira de árvores que protegiam a entrada do que viria a ser seu palácio, uma chuva branda começou a acariciar a floresta. E como que a presença de Tremuria tivesse despertado a ira de algum deus, a chuva tornou-se progressivamente mais pesada, castigando o solo na fronte da caverna e acuando até mesmo Tremuria que, como já disse, não sentia medo de nada. Sua reação foi procurar refúgio na caverna, que hesitava em adentrar, pois não queria acordar qualquer besta que lá se habita. Tremuria acreditava que aquele era provavelmente o lar do protetor da montanha, e como nenhum mortal jamais reportara subir a montanha, qualquer fera que protegesse este pico deveria ser de fúria inimaginável. E quando entrou, achando que ia de encontro com sua morte, ficou ainda mais impressionado com a beleza do local. E nesta noite Tremuria decidiu que aquele então seria seu lar, protegido pela floresta e pela escuridão brilhante da caverna, pela altura do pico e seu círculo de neve.



Notas do Autor:

Olá pessoal. Putz, acredito que já se completam doze meses que eu não postava alguma coisa útil no meu blog. Bem, finalmente tomei coragem. Esta é a lenda de Tremuria, personagem que eu criei há alguns mêses. Por favor, não desanimem. Os primeiros capítulos são introdutórios. Logo logo teremos pouco mais de ação (embora, como é obvio, a ação à qual me refiro seja de cunho psicológico).

Meu objetivo com esta saga é, como devem esperar, falar mais de mim mesmo. Como não consigo (por medo, vergonha ou seja o que for) ser sincero sobre nosso mundo e mais ainda, meu mundo, espero que Tremuria seja meu porta-voz. Postar esta confissão já é assustador.

Há, quanto aos comentários. Inegável que só me dou o trabalho de digitar todas estas idéias porque espero o feedback alheio. Alias, este pode mesmo ajudar-me a esculpir a estória, por isso, postem! O sistema de comentário do Blogger é levemente ruim, eu sei. Eu preferiria algo no estilo Fotolog.net, mas além de ser complicado criar uma conta no site (desculpa boba - eu consigo criar rápidamente se decidir mover-me para lá), existe um triste limite de comentários por post. Além disso, creio que seria obrigado postar uma nova imagem a cada capítulo, e não tenho esta pretensão.

Bem, por favor, comentem! Sugestões, dúvidas, hatemail, lovemail, qualquer coisa vale.

Estarei comentando sobre o próprio conto nos próximos posts, e espero colocar dois capítulos novos por semana. Nesta fase inicial, entretanto, posso escrever pouco mais rápido.

Finalmente, sempre anotarei qual música eu estava ouvindo durante a produção do texto. Hoje, fui acompanhado por Tristania, com seu album World Of Glass; Abraços.