
Sonhos
Mas neste dia o Sol não lhe importava, ou qualquer outro astro. Nem mesmo o canto dos pássaros (que ele começou a ouvir a alguns dias) fazia seu olhar desfocado, arregalado, se alterar.
Rilo se aproximou, curioso para saber o que havia deixado alguém como Tremuria de tal forma. Certamente, não seria um perigo, pois Tremuria não parecia temer nada. Também não seria alguma noticia, pois estavam incomunicáveis, pássaro e homem, a aquela altura daquela montanha. “Que te aflige, Tremuria? Faz dois dias que você não sai da caverna, e agora que sai, está assim, perplexo?”
“Rilo?” Tremuria parecia que estava saindo de uma alucinação, suas íris recuperando o foco, sua face se endireitando. “Eu...”
“Eu acredito que nós estamos sozinhos aqui, e homem algum pode lhe causar mal, amigo, então o que te impactou tanto?” O pássaro voou até um galho da arvore mais próxima, um arbusto na verdade, que mal sustentou seu peso.
“Eu...” Tremuria balbuciava, parecia estar recuperando a consciência vagarosamente. “... tive um sonho.” Com esta revelação, ele pareceu perceber finalmente o pássaro a sua volta e tornou seu olhar à ele. “Mas que isso te importa?”
“Nós somos os únicos aqui, meu caro” Rilo se moveu no galho, pulou para próximo de Tremuria e fixou-se (ainda que mal) sobre o solo. “Só queria ajudar. O que pode haver de tão mal em um sonho?”
Tremuria se moveu, desconfortável com a confissão. Não conversava com alguém há anos, e agora havia um pássaro fazendo perguntas incisivas. “A questão maior, Pássaro, não é o sonho em si.”
Mais curioso que antes, Rilo perguntou com uma voz branda, tentando manter a conversa. “Então, qual seria a questão?”
“A questão é que eu não sonho.”
“Como, não sonha? Quer dizer, você não se lembra?” Rilo estava cada vez mais curioso. Havia uma semana que tinha tido o encontro conturbado com Tremuria. Já achara estranho um humano a tal altura nesta montanha gélida e inóspita, mas agora o ser lhe revelava que não sonhava. Que se lembra, todos os animais inteligentes sonhavam, até mesmo ele, uma criatura menor, e seus irmãos. Diziam que até mesmos as árvores, mais estúpidas de todas as criaturas, eram capaz de sonhar com o Sol. “Acho que seja impossível que você não sonhe.”
“Porém, não sonho. Sonhei apenas duas vezes em toda minha vida. E acredito que este seja o terceiro.”
Rilo voou até uma árvore. Tremuria descia o morro, agora que anoitecera. Ele parou à frente da caverna, e começou a acender uma pequena fogueira. Algo grande estava para acontecer, ele tinha certeza. O sonho não deixava dúvidas. Seus antigos dons ainda existiam, ele tinha consciência, e agora ele era obrigado a aceitar sua benção (ou maldição) novamente.
Rilo estava cada vez mais curioso, coisa que irritava Tremuria. “Não vai mesmo me contar sobre seu sonho? Você devia confiar em mim, Tremuria. Nunca lhe desejei mal.”
Tremuria, abaixado em frente ao fogo, desviou seu olhar por alguns segundos e fitou o pássaro. “Você me irrita. Não pretendo lhe contar o sonho para sua própria segurança, mas se for me atrapalhar a noite inteira, desisto.”
O pássaro estava pulando, perceptivelmente alegre. Ele finalmente fazia contato com Tremuria. A insistência havia compensado. “Então me conte, porque não irei desistir.”
Tremuria se levantou, com um graveto em sua mão, a ponta em brasa. “Há muitas e muitas léguas daqui existe um reino chamado Gália. Eu estive lá há quinze meses.”
O Sol havia se posto completamente, e a Lua tardava a subir. Apenas as estrelas enchiam o céu com luz. O brilho cintilante da fogueira dava um tom estranho a pele bronzeada de Tremuria. Ele rasgou o breu da noite com seu graveto, e o brilho traçado pela brasa perdurou no ar por alguns instantes.
“Neste reino, existe uma pequena vila, Armstand, fundada na época Romana. Um templo fica no centro da cidade, e é habitado por doze monges. Eu vivi com estes monges durante algum tempo. Para ser sincero, eles me protegeram por vários anos. Eu sonhei com este lugar.”
Rilo estava visivelmente excitado. “Anos e anos você viveu com monges? Quantos anos?”
Tremuria riscou o ar novamente, desta vez desenhando uma espiral. Ela pareceu se mover para fora, se transformando num círculo. “Cinco. Foi suficiente para me tornar amigos deles, principalmente de seu mestre, Aluí”.
“E por que saiu?”
“Foi inevitável. Eu não posso parar muito tempo num lugar. Meu passado me assombra, e eu não queria levar isso àqueles monges. Mas parece que não adiantou.” Tremuria se sentou sobre uma pedra na frente da caverna.
Rilo mergulhou na noite, passou próximo a fogueira, que respondeu a sua rasante e brilhou intensamente. “Por que não adiantou? O que aconteceu?”
O olho de tremuria se tornou vazio novamente. “O sonho. Nele, o templo é atacado pelos meus antigos inimigos. Tudo está queimando.” O graveto balançou novamente, desenhando uma figura estranha. Desta vez, para o espanto de Rilo, a figura ficou no ar. O brilho aumentou, e logo Rilo pôde ver um pequeno templo sendo assaltado por vultos negros. A cena era rápida, os vultos pareciam chocar com focos de luz e estes sumiam. Logo, um dos vultos começou a brilhar fortemente, e logo todo o lugar estava em chamas. O brilho da imagem foi aumentando, até se tornar insuportável e obrigar Rilo a fechar os olhos. Quando ele abriu, a ilusão tinha sumido. Se é que ela havia existido. O pássaro começou a acreditar que isso tinha sido algum tipo de alucinação induzida pelo narrador à sua frente.
“Eles... morreram?” Rilo arriscou a pergunta.
“Todos. Foram apunhalados pela ambição de alguns seres estúpidos. Só me resta descobrir quais.” Tremuria se levantou novamente, e lançou o graveto no fogo.
“Mas, foi apenas um sonho. Não significa nada.” Rilo estava assustado, seus olhos brilhando com lágrimas e medo.
“Não existe isso. Eles estão mortos, ou serão mortos. É apenas uma questão de tempo.”
Tremuria se voltou à caverna. Rilo o interrompeu antes que atingisse a escuridão daquele portão natural. “E o que você vai fazer?”
Tremuria parou, um pequeno sorriso de agonia pintou seus lábios. “Nada. Não há mais nada que possa ser feito. Vou apenas esquecer o sonho.”
Notas do Autor:
Ae pessoal. Finalmente consegui postar mais um capitulo da Saga de Tremuria. Devo dizer que muitas coisas dificultaram este post. Primeiramente, semana passada foi incrivelmente dificil, cheio de coisas pra fazer, provas, trabalhos, tudo. Depois, eu tive que realizar algumas escolhas difíceis para este cápitulo. Eu tive que decidir se Tremuria iria seguir o curso natural e se transformar num conto fantástico ou se eu ia manter o caráter simples da estória.
Eu digo "curso natural" porque normalmente minhas estórias tem este foco. Eu sou influenciado por escritores como E. A. Poe, Lovecraft, H. G. Wells e Neil Gaiman. É óbvio que tudo toma uma direção que leva ao inexplicavel, ao impossivel.
Entretanto, eu pretendia que Tremuria fosse pouco diferente. Sim, a personagem era diferente, fantástica. Mas eu não ia deixar que isso influisse muito na estória; ia ser apenas uma narração sobre como algumas pessoas reagem a certos problemas da vida. Tremuria iria ter problemas mundanos, como relacionamentos, amizades etc. Ele iria, afinal, ser meu porta-voz.
Para o bem da narrativa, entretanto, abandonei esta abordagem. Moldar Tremuria para que ele falasse tudo aquilo que eu gostaria de falar iria dar muito trabalho, e ia se tornar uma estória massiva. Por outro lado, cada vez que eu pensava na estória, mais idéias alternativas eu tinha, boas de certa forma (se eu consegui narrar corretamente, pois como um amigo meu me disse uma vez, não adianta ter a melhor estória do mundo e não saber escrever).
Já tenho mais um capítulo escrito, mas como de costume, irei dar um tempo antes de postar, para que eu possa revisá-lo. Desta forma, eu olho para o texto depois que as idéias assentaram melhor na minha mente.
Suficiente sobre o texto. Espero que eu tenha continuado a despertar a curiosidade daqueles que perdem preciosos minutos lendo meus delírios. Agora, vamos agradecer aos comentários. Primeiro, a grande Taty. Garota, você capturou a essência do personagem de forma inexplicável. Quando eu vi aquilo, fiquei muito animado, percebi que pelo menos uma pessoa tinha entendido tudo. Fico feliz que você tenha gostado da estória. Estou tentanto fazer isso aqui funcionar.
À Carol e o Otávio, brigado por continuarem lendo isto daqui. Significa muito para mim.
Finalmente, músicas: Escrevi acompanhado pelo grande Dream Theater, no novissimo CD Octavarium.


